Espiritualidade Cristã

O que é Espiritualidade Cristã e como desenvolvê-la

Ao escutarmos a palavra espiritualidade, uma enxurrada de coisas nos vêm à mente, por efeito de influências externas que condicionam a maneira como pensamos. 

Porém, estudando mais a fundo a espiritualidade cristã, somos confrontados com a percepção de que tudo o que entendemos como espiritual, na verdade não é.

Particularmente, quando penso em alguém espiritual, imagino um monge, ou até mesmo uma entidade isolada, que não tem contato com a maldade ou o pecado. 

E você? O que vem a sua mente?

Meu objetivo com este texto é entendermos o que realmente é ser espiritual e o como podemos desenvolver a nossa espiritualidade.

Ser espiritual é ser humano 

A teologia cristã reitera que, de fato, ser espiritual é ser cada vez mais humano.

Isso porque, desde a fundação do mundo, fomos arquitetados por Deus para servir um propósito, e quanto mais espirituais nós somos, mais perto chegamos da finalidade para a qual fomos criados. 

Desde o Éden, Satanás opera de modo a confundir o homem, fazendo com que pense que é mais ou menos do que foi criado para ser. 

Todavia, só poderemos viver uma vida plena ao entender nossa identidade em Deus, nada menos e nada além de seres que existem para glorificá-lo.

Mas o que significa ser espiritual?

Creio que essa pergunta pode gerar um debate bem grande, mas quero respondê-la de uma maneira bem simples: ser espiritual é se tornar cada vez mais parecido com Jesus Cristo

Ele é o nosso exemplo de ser humano, e a nossa meta a alcançar. 

Acredito também que ser espiritual não se restringe a uma proclamação pública da , ou a esgotar todo conhecimento que há para ser estudado. 

A principal forma de transmissão da espiritualidade se dá mediante nossas ações e nosso amor. Assim, uma pessoa espiritual permite que sua vida seja 100% conduzida pelo Espírito Santo. 

O ponto de partida da espiritualidade cristã 

Assim como a conversão é o início da vida para o cristão, é nela também que começa a se tornar espiritual. 

Por consequência, o novo nascimento nos permite reconhecer quem somos, e a entender quem precisamos nos tornar (não por nossa própria força, mas pela graça de Deus).

Quando olhamos para dentro de nós, em um processo de interioridade, percebemos que somos pecadores e precisamos de um Salvador. 

O primeiro passo para se tornar alguém completo, é reconhecer a nossa natureza caída. 

A Bíblia deixa bem claro o quão pecadores nós somos. Várias passagens nos mostram que não somos nada sem a graça e a misericórdia de Deus, como por exemplo: 

  • Rm 3:10-23
  • Rm 7:14-1
  • 1 João 1:8-10
  • Isaías 64:6

Graças a Deus por ter enviado a Jesus, porque a partir dEle podemos nos tornar mais espirituais, visto que não nos encontramos mais debaixo do poder do pecado.

A santidade enquanto um processo 

Caminhando um pouco mais, chegamos no processo de santidade. Não é chamado de processo à toa, pois deve ser desenvolvido pelo resto de nossas vidas. 

Se ser santo é um mandamento direto do Senhor, a santidade é algo que devemos buscar diariamente. 

“Vocês serão santos para mim, porque eu, o Senhor, sou santo, e os separei dentre os povos para serem meus.” (Lv 20:26)

A santidade na Bíblia 

Diferentemente do que muitos possam pensar, ser santo não é se isolar de tudo e todos, sem ter contato com ninguém para se manter puro. 

Jesus quando ora por nós em João 17 diz: 

Não rogo que os tires do mundo, mas que os protejas do Maligno. Eles não são do mundo, como eu também não sou. Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade. Assim como me enviaste ao mundo, eu os enviei ao mundo.” (Jo 17: 15)

Essa passagem pode resumir o significado de santidade. 

Não é fugir de tudo e se isolar. Não é se fechar em uma bolha gospel. 

Na verdade é se encontrar em Cristo, ter sua identidade fixa em Deus e ir em direção ao mundo levando a boa notícia de que fomos salvos.

Gosto do exemplo de Daniel para definir isso: ele morava na grande Babilônia, mas se diferenciava dos demais, desde sua dieta até a sua religião.

Desse modo, sua história nos traz a confirmação e a esperança de que é possível viver em meio ao mundo, sem deixar de ser luz. Sem deixar de ser espiritual.

As pessoas ao redor dele enxergavam o Deus de Israel em tudo que ele fazia.

Entendendo a espiritualidade cristã

Na busca pela espiritualidade, também passamos por tópicos como a religião, a fé, a razão e a humildade. 

A seguir, abordaremos brevemente cada um deles. 

Religião 

Por religião, compreende-se a busca constante do ser humano para preencher um vazio inerente à sua existência, que todos possuem dentro de si. 

Tal vazio equivale-se ao disposto no livro de Eclesiastes: “Deus pôs a eternidade no coração do homem sem que este saiba as obras que Deus fez do princípio até fim.” (Ec 3:11) 

Assim, o homem acaba sendo levado a fazer de tudo para se sentir preenchido, desde boas ações até cultos místicos. 

É justamente nesse sentido que a religião se diferencia da revelação. 

A religião assimila condutas por meio das quais o ser humano tenta trilhar seu caminho até Deus, enquanto a relevação diz respeito à aproximação de Deus, que se revela por meio de sua graça ao homem.

Em toda a Bíblia vemos Deus se revelando. Um Deus misericordioso, que mesmo com a rebelião do homem, envia seu Filho para morrer a nossa morte.

De Gênesis a Apocalipse, temos Deus vindo em direção à humanidade, restabelecendo nossa relação com Ele.

Fé 

A fé é o ato de crer e praticar. Quando alguém declara ter fé em determinada crença, mas o seu estilo de vida não abrange aquilo que diz acreditar, certamente não tem fé. 

Seria melhor colocar: eu não tenho fé, mas sim a fé me tem. É algo além de nós.

A Bíblia nos diz que a fé é um dom de Deus. E sem dúvida um aspecto muito importante quando se trata de espiritualidade. 

Isso, porém, não quer dizer que a nossa fé não seja racional.

O diálogo entre a fé e a razão

Não devemos subestimar a importância de questionar a nossa fé. 

Infelizmente, muitos cristãos não sabem porque acreditam cegamente no conteúdo pregado no púlpito da Igreja, só escutam e obedecem. 

Isso de maneira nenhuma é correto. 

Devemos compreender racionalmente nossa crença e, na hipótese de sermos questionamos, nos é devido responder apropriadamente, como nos é ordenado em 1ºPe 3:15.

Afinal, crer é pensar!

Humildade

Mas, na mesma medida em que é preciso ter conhecimento, a humildade também se faz de suma importância. 

É necessário que nós nos encontremos dispostos para perder chãos e logo depois reconstruí-los.

Quando somos humildes para reconhecer que estamos errados em algum assunto bíblico por exemplo, o natural é procurar a resposta correta logo depois e se tornar mais firme em nosso conhecimento e fé. 

É importante se colocar em posição para aprender e não necessariamente ensinar. Já dizia o antigo ditado: temos dois ouvidos e uma boca para escutar mais e falar menos.

A humildade nos ensina que não sabemos de tudo e sempre podemos aprender mais, assim continuamente crescer no nosso relacionamento com Cristo.

Como posso me tornar mais espiritual? 

Tudo isso (e mais um pouco) é abrangido pelo assunto da espiritualidade, mas creio que pode surgir a pergunta: 

“E na prática, como posso me tornar mais espiritual?”

Em primeiro lugar, cabe ressaltar que se tornar espiritual não consiste em seguir algumas regras, mas sim em amar a Jesus, e fazer o que ele fez. 

Como posso amar a Jesus?

Podemos concordar que não se ama aquilo que não se conhece. Então, só vamos amar realmente a Deus quando conhecermos quem ele é de verdade, e quais são seus mandamentos. 

Aqueles que adoram a Deus sem conhecer e amar seus mandamentos, adoram uma projeção de suas mentes. “Um Deus” criado por eles mesmos para saciar suas necessidades religiosas. 

Os mandamentos morais de Deus, antes de serem meramente regras, são a demonstração evidente de Seu caráter.

Portanto, aqueles que negam ou desprezam os Seus mandamentos, negam e desprezam ao próprio Deus.

Como posso conhecer a Deus? 

Conhecemos a Deus por meio de maneiras que Ele nos disponibilizou de encontrarmos Ele.

Chamamos de disciplinas espirituais algumas práticas que devemos possuir de modo a conhecer a Deus e a Sua vontade. E não apenas conhecê-lo, mas termos intimidade com Ele.

Oração

Muitas vezes mal interpretada como um instrumento para mudar o coração de Deus, a verdadeira oração deve nos transformar, nos colocando em acordo com a vontade de Deus.

Oramos para nos aproximar e conhecer a Deus, além de nos deixar ser moldados pela sua vontade.

C.S. Lewis, um dos maiores autores e apologetas cristãos, quando questionado sobre a importância da oração disse:

Deus não precisa da minha oração. Sou eu quem preciso dela. A oração me aproxima de Deus, revela minha dependência, minha fome e sede por Sua vontade, seu Reino, sua pessoa. A oração muda principalmente a mim — minha visão de Deus, do próximo, das circunstâncias.

Não oramos para que Deus mude Sua vontade, mas sim para alinharmos nossa vontade à Dele. 

Pode-se perceber que quanto mais nós oramos, menos direcionadas à nós nossas orações se tornam, e cada vez mais direcionadas ao próximo e ao que está no coração de Deus. 

Solitude  

O fim e objetivo dessas disciplinas é de nos ensinar sobre quem é esse Deus. Uma das maneiras de conhecê-lo, é conhecer a si próprio por meio das lentes de quem o criou. 

Temos que nos levar para o deserto, um lugar onde você fica em solitude, para que se conheça e enxergue no que pode melhorar, onde está falhando com Deus e com o próximo. Um ótimo exercício a se fazer.

Quando sozinho, deixamos de lado tudo que possa tentar preencher um vazio em nós, e fixamos nossos olhos no único que consegue nos satisfazer.

Comunhão  

Viver em comunidade nos ajuda em todos os sentidos. 

Amigos verdadeiros nos encorajam a viver uma vida dedicada a Cristo, uma vida realmente espiritual. 

Eles nos mostram onde podemos melhorar, nos exortam, nos ensinam e exalam o perfume de Cristo. 

Como posso ser luz? 

Até agora vimos a espiritualidade em nós. 

Para mais, apresentaremos os meios em que o Espírito Santo nos guia para ser luz fora das quatro paredes da igreja, a espiritualidade na missão e na vocação de cada um. 

Isso envolve o chamado de cada um, que sabemos ser individual, mas com um único foco: glorificar a Deus. 

Assim como Jesus fez, descendo do seu posto de Deus e vindo como homem para salvar toda a humanidade, devemos também deixar todo o orgulho de lado para glorificar Aquele que nos criou e salvou de nós mesmos.

Missão e vocação 

A espiritualidade tem um espaço grande na missão e na nossa vocação. 

Quando escutamos o direcionamento do Espírito, só assim conseguimos concluir o quê fomos criados para fazer.

Desde escutar a voz de Deus para saber o nosso chamado ou para saber onde ir, até saber o que falar com alguém que está necessitando de algo bem na sua frente. 

Acima de tudo, acredito que a humildade é o mais importante. 

Temos que saber que a missão é de Deus e não nossa, e que ele que planejou tudo desde o começo. Só temos o privilégio de ser coadjuvantes na maior obra do universo.

Conclusão 

Para recapitular e finalizar, agora você já sabe que alguém espiritual não é um monge ou algo parecido com isso.

Uma pessoa espiritual é aquele que é parecida com Jesus, pois Ele foi o ser humano perfeito. 

Por isso  entendemos que não é necessário você ter atitudes milagrosas para ser alguém espiritual, mas sim viver da maneira que você foi criado para viver, se deixando ser guiado pelo espírito em uma vida prática com Deus.

Concluímos então que a espiritualidade cristã implica em se relacionar com o Pai, se conhecer, amar o seu próximo como a sua própria vida e viver o seu chamado dentro da missão de Deus. 

Ou seja, é ser alguém que se entrega integralmente à quem a criou e dedica tudo para glorificar a Deus!

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Um comentário em “O que é Espiritualidade Cristã e como desenvolvê-la

  1. Oi Renato.
    Sou estudante de Teologia na Universidade Católica de Angola no Instituto Superior de Teologia ISTEB de Benguela.
    Estou escrevendo e preparando minha tese de licenciatura em ciências religiosas subordinado ao tema: A Conduta do Cristão dentro da sociedade.
    Gostei do teu artigo e escrevo-lhe para não só para saudá-lo pelo trabalho que tem desenvolvido,mas também para dizer-lhe que ajudou muito.
    Que Deus te abençoe.
    Rita da Conceição António.

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